
DISCURSO DE LANÇAMENTO
Saudação à mesa de honra e preliminares
-------------------------------------------------------------------------------------------
Teorizemos um pouco sobre a arte de fazer História.
Atualmente os métodos de pesquisa histórica são bastante variados. Para escrever um pouco da história de nossa cidade, talvez eu não tenha seguido nenhum método específico, embora o Sr. José Carmo Filho, em sua preliminar apreciação da obra, tenha referido haver sido “escrita com metodologia adequada”.
O registro histórico, segundo Hélio Jaguaribe, tem origens nas cronologias do Egito Antigo e mesmo em culturas mais recuadas, como, por exemplo, os povos sumérios. Mas as narrativas históricas, com organização e certo método de exposição e análise, somente apareceram com Heródoto e Tucídides, historiadores gregos que viveram no IV século a.C.
Paul Cartledge, no primeiro volume GRÉCIA ANTIGA, da coleção HISTÓRIA ILUSTRADA, pontifica que: “A cultura grega era fundamentalmente oral; a palavra usada pelos gregos para “LER”, correspondia a reconhecer, ou seja, reconhecer em palavras escritas aquilo que já se ouvira dizer. Uma das palavras gregas para “LEITOR” era, literalmente, “OUVIDOR”. A maioria dos gregos ouvia mais do que lia”.
Assim, inconscientemente e de forma quase empírica, foi construída a minha narrativa sobre a história de nossa cidade. Ouso dizer que ela guarda alguma semelhança com o autor acima citado, visto que sou um “ouvidor” que tentou transmitir em palavras, de forma organizada e sistemática, aquilo que escutou dos mais antigos, ouviu referências, ou colheu em entrevistas e depoimentos, bem como testemunhou ou mesmo fez a narração de acontecimentos e fatos de que foi protagonista.
A história ou, mais precisamente, o registro escrito, segundo prescreve Freud, poderá esconder interesses escusos ou intuitos deformadores. Isso encontra explicação na ideologia dominante que, geralmente, ao longo dos séculos, tem sido encarnada pela figura do mandatário, seja ele rei, imperador, presidente, ditador, governador e até prefeito. Essas figuras poderosas vão fazendo inscrever na história apenas os fatos que lhes enaltecem a imagem, de forma a enriquecer sua biografia com feitos políticos e/ou guerreiros, muitas vezes diferentes daquilo que realmente ocorreu. Quanto a isso, sempre ouvi dizer que a história escrita por nós, brasileiros, sobre a guerra Brasil/Paraguai, travada no século retrasado, é muito diferente daquilo que se registrou do lado paraguaio. Ainda ilustrando esse fato de esconder as coisas ruins, o ministro Ricúpero, do governo Fernando Henrique, foi flagrado pelos microfones da TV Globo, em conversa com um repórter, proclamando mais ou menos o que segue: “Na economia, as coisas boas a gente publica; os fatos ruins, a gente esconde”.
Volto a reafirmar aqui e agora o mesmo que declaro na parte introdutória do livro: tenho escrúpulo de fazer falsificação, e passa longe de mim propósito deformante, pois não tenho necessidade de modelar narrativas com intuitos escusos. Enganos ou omissões, se houver no que relato e informo, dever-se-ão a erros de entendimento, de interpretação ou de informação. Neste último caso, sim, poderia haver remota possibilidade de propósitos escusos por parte de quem me municiou de informações. Mesmo se tal deformação tivesse ocorrido, mais certo seria creditar isso na conta da natural deturpação, dentro daquilo que reza a sabedoria popular: “Quem conta um conto, aumenta um ponto”.
E a propósito de deformação, aqui, novamente, me socorro do Sr. Cartledge, para quem: “Escrever sobre história não é tão simples como se pensa. A História - escrita em oposição ao que de fato ocorreu no passado – é sempre uma narrativa, e dois narradores jamais contarão a mesma história ou, pelo menos, do mesmo modo”. Isso vem justificar o que aventei como possibilidade de erros de interpretação ou de entendimento. Ademais, a História jamais poderá abranger todos os fatos e acontecimentos ocorridos no bojo de uma sociedade, ou mesmo de pequena comunidade como a nossa, de menos de nove mil habitantes. Daí a razão de alguns fatos, julgados importantes por alguns, poderem não ter sido tão impactantes para mim ou, ainda, me parecerem inadequados para relatar.
Toda essa retórica pretensamente acadêmica, tem por finalidade reconhecer que jamais poderia satisfazer a todos: se agrado a uns aqui; ali a outros deixo insatisfeitos, visto que “a minha” não é a “verdade” deles. Não busco, portanto, a unanimidade. Nem ousaria almejar tanto. Aliás, o grande Nelson Rodrigues já proclamou que toda unanimidade é burra.
Agora falemos do livro. Ei-lo. (mostrar)
Um livro, segundo definição da Wikipédia, “é um volume transportável, composto por páginas encadernadas, contendo texto manuscrito ou impresso e/ou imagens, e que forma uma publicação unitária”. A ONU, que se pronuncia sobre quase tudo, ainda acrescenta que ele deve ter, no mínimo, 49 paginas. O conteúdo pode ser o mais variado possível: literatura, teatro, temas acadêmicos, textos científicos, filosóficos, históricos etc.
O conteúdo do meu trabalho enquadra-se na categoria de história. Não obstante a inserção de crônicas e contos pessoais, o aspecto histórico não desaparece, tendo em vista que essa feição literária tem por fim relatoriar ou subsidiar, com o meu testemunho, episódios nos quais fui protagonista ou deles ouvi referências.
Na parte essencialmente histórica, procurei fazer a averbação de certos usos e costumes, do trabalho, da religião, da economia, da política e de outros temas ligados a nossa Terra e a nossa gente. Dessa forma, na primeira parte – NO ARRAIAL ANTONINO-POLICARPEANO - me ocupo da vida de nossa gente, ainda ao tempo em que éramos apenas Jenipapeiro. Daí destacar, dentre outros, tópicos como: DA TERRA E Suas Romântica Origens; as SAFRAS DO FEIJÃO, DO ALHO e DA MANDIOCA; a PECUÁRIA, o COMÉRCIO, HÁBITOS ALIMENTARES E Higiênicos, a SAÚDE, a EDUCAÇÃO, a RELIGIÃO.
A segunda parte, denominada NO FEUDO SANCTORUM, desdobra-se nos capítulos: FRANCISCO SANTOS – A Emancipação Política; A EMIGRAÇÃO: Desafio da Sobrevivência e Espírito de Aventura; O FEUDO OLIGÁRQUICO: Construção e Estabelecimento; CONSOLIDAÇÃO DO MANDO POLÍTICO Da Família SANTOS Em Francisco Santos; O VISGO DA POLÍTICA Ou a Magia do Poder e SEU LOURA, Eleitor de Cabresto.
Em seguida, vêm ENTREVISTAS, com os senhores prefeitos: SIMPLÍCIO Morais Santos; Maria CARLEUSA dos Santos Batista de Carvalho; ELPÍDIO Arlindo Lima e José EDSON de Carvalho. Através dessas entrevistas, pode o nosso conterrâneo formar juízo sobre as práticas políticas do lugar, práticas essas que não diferem muito daquilo que ocorre em outras comunidades e, de resto, neste imenso território de Brasis.
Abrem-se depois HOMENAGENS, constituídas de artigos escritos por pessoas convidadas a traçar a biografia dos homenageados, senhores LICÍNIO Pereira dos Santos; ELIZEU Pereira dos Santos; Francisco Rodrigues de Sales, o popular CHODÓ; Francisca dos Santos Rodrigues, a famosa Francisquinha, e MARIANO da Silva Neto. Para mim, e penso que para o conterrâneo de modo geral, essas pessoas merecem figurar no panteão dos heróis da Terra!
A última parte é auto-explicável: FRANCISCO SANTOS Em Números e Fotos.
Na parte política, ganham vulto poucas famílias, sendo a principal delas a família SANTOS, pelo simples fato de ela vir dominando a vida de nossa comunidade há quase um século, nos aspectos religioso, econômico e político.
É sabido que no Brasil as povoações começavam pela capela. A nossa primeira capela foi instalada em 1918. A partir dessa data, o senhor Licínio Pereira ficou encarregado das chaves da igreja, recebendo padres e outros religiosos que por cá chegavam, por ocasião das desobrigas, geralmente duas por ano. Coincidentemente, nesse mesmo ano o senhor Francisco de Sousa Santos assumia a Intendência, em Picos, por morte do titular, também jenipapeirense, o Sr. Antônio Rodrigues da Silva. A partir daí, por delegação do novo intendente, seu irmão Licínio Pereira passaria também a resolver certos assuntos da vida civil do nosso ainda pequeno arraial, sempre agindo em nome e de acordo com as suas orientações.
Famílias como as de Arlindo Lima e Francisco Rodrigues de Sales, o popular Chodó, também são destaques em vista de haverem feito, durante certo tempo, oposição ao grupo majoritário dos Santos. A particularização dessas poucas famílias fica na conta do aspecto político que elas representaram e ainda representam, razão pela qual não tive como deixar de nomeá-las. As demais famílias não foram contempladas em vista de o meu trabalho, à parte o aspecto político, assumir feição de cunho econômico-sociológico. Esses fenômenos, enquanto teoria, são estudados como um todo, sem a possibilidade de individualizações.
A figura de meu pai, que também consta do livro, não tem sentido de homenagem, e entra apenas como exemplo do eleitor de cabresto. Assim o chamo sem vezo de deboche ou críticas às antigas práticas políticas, inclusive porque não iria debochar de meu pai, a quem tanto amei e do qual guardo indelével lembrança. No corpo do trabalho, tento explicitar o quê e o por quê da existência dessa figura.
Nessa obra, abordo ainda temas como a desertificação de nossas terras; o assoreamento e “morte” do rio; o empobrecimento de algumas famílias tradicionais e o surgimento de novos-ricos; a lenta substituição das atividades agrícolas pelas do comércio, nas quais demonstraria o nosso conterrâneo invejável capacidade de adaptação. E, finalmente, falo das ondas migratórias que ocorreram em meados das décadas de 1960 e 1970. O fenômeno dessas migrações, principalmente de populações do Nordeste, se deve ao eterno problema da seca, com as suas trágicas consequências, coadjuvado por fatores outros que tento esclarecer no livro.
No caso de nossos concidadãos, a retirada aconteceu visando à busca de melhores meios de sobrevivência em outras paragens. Portanto tem fundamento econômico. Além dessa motivação, não podemos ignorar o “espírito de aventura” que sempre animou a nossa gente. Lá fora, viraram mestres na arte do escambo, quer na venda do alho, quer no comércio de produtos adquiridos na Zona Franca de Manaus, quinquilharias compradas no Crato e no Juazeiro, e depois na Ciudad Del Leste, no Paraguai. Muitos, entretanto, especializaram-se em técnicas de vidraçaria e outras artes manuais, além de bares, restaurantes e mercearias.
Faço questão de ilustrar a diversidade de mercadorias citando versos que compus, valendo-me do que Mané Loura me disse vender em sua banca, no mercado de Araguaina, cidade em que faleceu em 1994.
Dou mostra dessa mistura
em bazar de Araguaína:
pimenta, cominho e cravo,
vela branca e parafina;
sutiã, calcinha, renda,
vestido de seda fina,
facão e faca de ponta
e mais produtos sem conta.
Ensina-nos a psicologia, que a pessoa humana é dotada de quatro desejos básicos na vida, sendo um deles a busca de novos conhecimentos. Pois alguns dos nossos jovens, integrantes daquela primeira onda migratória, não se acomodaram no mesquinho horizonte de um sub-emprego ou de uma reles colocação. Não! Alguns desses jovens buscaram no estudo a realização pessoal de um sonho de vida melhor, alcançando invejáveis posições, principalmente em Brasília, desaguadouro de muitos de nossos aventureiros. Dentre esses podemos citar, sem prejuízo de outros, José Carmo Filho, João Erismá de Moura, Amadeu dos Santos Rodrigues e Valmir, este gabaritado técnico em laboratório.
Mas não foram apenas os de Brasília a vencerem na vida. Quase todos os que se mudaram – pra Picos, Teresina, São Paulo, e outras tantas cidades e capitais – se deram bem na nova empreitada, e conseguiram formar alguns dos filhos. Isso é descontino, perspicácia, nova visão de mundo. Aqui, diante de nós, está um desses emigrados, herói anônimo, guerreiro, destemido. Prole de 15 filhos, conseguiu formá-los todos em nível superior. Falo de Simplício Morais Santos, que apenas com a força do seu trabalho árduo conseguiu tal façanha. Na família de meu pai, cujos filhos quase todos arribaram “trouxa”, existem alguns formados. Desculpem, senhoras e senhores, a referência pessoal, pois não me contive em deixar de fazê-lo.
Convém observar que os que aqui ficaram, ou mudaram-se bem aí pra Picos, também marcaram invejáveis conquistas. Quantos são hoje os médicos aqui nascidos ou nascidos em outros lugares, mas descendentes de expatriados conterrâneos? São dezenas? Quantos são? O conhecido Evangelista, igualmente presente nesta solenidade, já tem um filho formado em medicina e outro em vias de se formar, e uma filha doutora em Educação. E em outras profissões? Quantos são os advogados, os professores, os engenheiros, os fisioterapeutas, os bancários? São dezenas, centenas, talvez milhares.
Diante desse arrazoado, pergunto, não aos jovens de hoje, mas às pessoas mais à antiga: é ou não é o nosso conterrâneo um guerreiro, um espritado?
Eis, portanto, o que registro no livro ora lançado.
Por falar nisso, muito hesitei em falar do título da obra, criticado por alguns, por uns poucos visto com reserva, mas aplaudido por muitos.
Um livro é um produto. Um produto sempre leva um rótulo. Pelo rótulo, muitos compram. Uns tantos se decepcionam com o seu conteúdo, pois o que encontram não expressa o que o rótulo anuncia ou a propaganda apregoa. Um título busca, em última instância, resumir aquilo que se quer oferecer ou vender. Eu ofereço história e estórias. O aspecto mais peculiar e definidor do modo de ser de nossa gente é o seu caráter aguerrido, corajoso, valente, que não se curva diante das dificuldades. Dizem que se a montanha é um obstáculo intransponível, que se a contorne. Tenho a impressão de que o nosso conterrâneo não contorna montanha; ele a remove, a exemplo do que nos ensina a fé quanto a isso.
Mas a linguagem humana é feita de símbolos, signos, gestos etc. A nossa língua, portanto, é rica de significados e conteúdos simbólicos e psicológicos aos quais cada um dá a sua interpretação. Quando alguém grita: ESPRITADO DO INFERNO! Isso, creio eu, é um xingamento. Mas se alguém exclama: Aquilo é o cão, é da terra dos espritados! Para mim, o significado é altamente positivo. É isso o que procuro explicar sobre o uso do termo. Ilustro a explicação com um caso real.
- "Mais isto é o diabo, Mané Loura! Inté aqui encronto este mangaiêro dos inferno pra me pressiguir... ô c'os diabo".
- "Mais é tu, Zé Nicó das profunda! Que que tu tá fazeno aqui neste lugar que o cão perdeu as espora? Ô espritado dos inferno!"
Esse diálogo, fielmente reproduzido, de fato aconteceu entre os dois alheiros em Araguaína, quando aquela cidade era apenas um amontoado de casebres e ruas poeirentas. Ali estavam eles procurando descobrir mercados novos para colocação de seus produtos: o alho!
Aurélio, famoso dicionarista, aponta “espritado” como um brasileirismo do Nordeste, significando: “digno de admiração; de extraordinária valentia”. Embora também consigne: “pessoa possuída pelo espírito do mal”. Posso garantir que não é o caso de nosso conterrâneo.
Quero crer que o significado conotativo da corruptela tem derivação bíblica. Religioso como é o nosso povo, está arraigada em sua memória coletiva a história do Gênesis, que informa sobre como Deus, soprando nas narinas do seu Homem de Barro, fez insuflar-lhe vida, alma, ânimo – espírito, enfim. O espírito é, portanto, o sopro de Deus, o que faz a pessoa mover-se. Por extensão, o nosso espritado seria aquele que se movimenta com desenvoltura, que não desiste, que enfrenta com coragem os obstáculos, as dificuldades. Espritado é quem tem espírito de luta, como o nosso caboclo. É Fé e Esperança. É, pois, substância e qualidade.
Existem o mangalheiro, o muambeiro ou o sacoleiro de Picos, de Bocaina, de Santo Antônio de Lisboa e de outras cidades ou povoados dos vales do Riachão e do Guaribas, onde, até em passado recente, desenvolveu-se fortemente a cultura do alho. Mas nenhum deles é chamado assim. Só nós, de Francisco Santos.
Assim, vivamos nós, os ESPRITADOS!
Por enquanto, esse aspecto do caráter de nosso povo continua o mesmo, e foi essa concepção que me fez atribuir o título original, até como forma de homenagear nossa gente. A palavra espritado era amplamente usada, ainda o sendo atualmente pelas pessoas de mais idade. E nela, conforme se verifica na tentativa de explicação acima, não existe deboche, gozação, desdém. Muito pelo contrário: nela se expressa toda a extensão “biográfica” de nossa Terra e da teimosia de sua aguerrida gente.